Sustentar o Passo sem Ver o Chão
Nenhuma decisão que reorienta uma vida vem com certidões ou garantias. Ela nasce de uma quietude interna, de uma ressonância que não se pode mais ignorar. É sempre uma aposta feita no escuro, um passo em um caminho que ainda não se vê por completo. A necessidade de justificar-se para os outros é, muitas vezes, um eco da nossa própria busca por uma certeza que a escolha, em sua essência, não oferecia. Tentamos construir com palavras um chão firme que não existia no momento do salto, transformando uma intuição solitária em um argumento público.
A autoria da própria vida não reside em ter todas as respostas, mas em sustentar as perguntas que a escolha inaugurou. Reside em bancar a aposta, em caminhar no território desconhecido que se abriu, arcando com a paisagem que se revela. É um ato de sobriedade adulta: abandonar a necessidade de ser compreendido por todos para, enfim, se comprometer integralmente com a própria travessia. A liberdade não está em convencer o mundo, mas em estar em paz com o movimento que se fez, mesmo sem saber exatamente onde ele vai dar.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 14 — Não Se Explicar para Todos