Quando a Pergunta Muda de Dono

Procurar um culpado é uma forma de organizar a dor, de dar-lhe um rosto e um endereço. É um roteiro que nos isenta da tarefa de escrever o próximo ato, colocando-nos no papel de vítimas de uma narrativa alheia. Nesse lugar, ainda que desconfortável, há uma espécie de repouso: o de não precisar decidir.

O ponto de inflexão, então, não é ruidoso. É um deslocamento interno, quase imperceptível, onde a energia antes gasta em apontar para fora começa a se recolher. A pergunta deixa de ser 'quem fez isto comigo?' e se transforma em 'o que eu faço a partir disto?'. Responder, em vez de reagir, torna-se o verdadeiro marco da autoria. É o fim da inocência reivindicada e o início de uma soberania silenciosa, que assume a curadoria da própria vida, mesmo diante de suas ruínas.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 21 — Você Agora Decide