Quando a Dor Deixa de Ter Endereço

Apontar um dedo foi, por muito tempo, um refúgio. A dor, quando tem um endereço claro no outro, parece mais administrável. Existe uma narrativa, um culpado nomeado, um lugar para depositar o peso que, de outro modo, se sentiria apenas como um caos interno. Essa terceirização da ferida organiza o sofrimento em uma história de injustiça, onde nosso papel parece definido.

Mas a consciência, quando desperta, começa a corroer essa estrutura. O alívio da acusação já não conforta como antes. A clareza revela que, embora a ferida possa ter sido aberta por alguém, a sua permanência é nutrida em nosso próprio território. A pergunta deixa de ser 'quem me fez isto?' e se torna, em um silêncio profundo, 'o que eu faço com isto agora?'. É a maturidade de quem recolhe a dor de volta para casa. Não como um ato de perdão ao outro, mas de apropriação de si. É o instante em que a responsabilidade deixa de ser um fardo e se revela como a única ferramenta para lidar com o que é, de fato, nosso.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 1 — Consciência Exige Ação