Quando a Consciência Não Alcança o Gesto

A mente lê e concorda. A lógica da gratidão é clara. Mas o corpo, depois das cinzas, opera em outra frequência; ele não responde ao intelecto, mas ao peso do acontecido. A energia para formular um agradecimento, para registrar o cuidado, por vezes não existe. Não por ausência de sentimento, mas por excesso de caos interno, onde sobreviver consome tudo. Nesse território denso, onde o ar ainda é fuligem, a gratidão pode não ser uma ação, mas uma semente silenciosa, plantada por um gesto que mal conseguimos notar. Aceitar esse descompasso é parte da travessia. O reconhecimento virá depois. Quando as cinzas assentarem o suficiente para que se possa, enfim, ver a mão que nos foi estendida no meio da fumaça.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 14 — A Gratidão por Quem Se Aproxima