Os Vereditos da Dor e a Liberdade da Revisão
Em momentos de profunda dor, agimos como juízes apressados de nossa própria história. Para dar sentido ao caos, proferimos sentenças sobre nós mesmos e sobre a vida. 'Eu não sou digno de amor', 'Ninguém é confiável', 'Todo esforço é em vão'. Esses vereditos, nascidos da necessidade de encontrar uma causa para o sofrimento, rapidamente se solidificam e se transformam em leis internas que governam nossa existência futura.
Essas conclusões, embora pareçam uma forma de proteção, são, na verdade, prisões autoimpostas. Elas criam uma narrativa que, de tão repetida, se confunde com a própria realidade. Cada nova experiência é então filtrada por essa lente judicial, e qualquer evidência em contrário é descartada como uma exceção que confirma a regra. O problema não é mais o evento original, mas a sentença que continuamos a cumprir muito depois de o tribunal ter sido desfeito.
A verdadeira liberdade interior começa quando nos concedemos o direito de apelação. A maturidade nos convida a reabrir esses casos antigos, não para negar a validade da dor sentida, mas para questionar a perpetuidade da sentença proferida. Com a sabedoria do tempo e a distância da ferida inicial, podemos atuar como nossa própria corte de revisão. Talvez a conclusão tirada em um momento de vulnerabilidade extrema já não se sustente. Anular esse veredito não apaga o passado, mas liberta o futuro para ser escrito em termos que não sejam os da sobrevivência, mas os da expansão.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade