Os Vereditos da Dor e a Liberdade da Revisão

Essas conclusões, embora pareçam uma forma de proteção, são, na verdade, prisões autoimpostas. Elas criam uma narrativa que, de tão repetida, se confunde com a própria realidade. Cada nova experiência é então filtrada por essa lente judicial, e qualquer evidência em contrário é descartada como uma exceção que confirma a regra. O problema não é mais o evento original, mas a sentença que continuamos a cumprir muito depois de o tribunal ter sido desfeito.

A verdadeira liberdade interior começa quando nos concedemos o direito de apelação. A maturidade nos convida a reabrir esses casos antigos, não para negar a validade da dor sentida, mas para questionar a perpetuidade da sentença proferida. Com a sabedoria do tempo e a distância da ferida inicial, podemos atuar como nossa própria corte de revisão. Talvez a conclusão tirada em um momento de vulnerabilidade extrema já não se sustente. Anular esse veredito não apaga o passado, mas liberta o futuro para ser escrito em termos que não sejam os da sobrevivência, mas os da expansão.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade