Os membros fantasmas da memória

Na medicina, descreve-se a sensação de dor ou presença de um membro que foi amputado. O corpo foi alterado, mas o cérebro ainda não redesenhou seu mapa interno e continua a enviar sinais para o que já não existe. A negação de uma dor emocional profunda opera de forma semelhante: amputamos uma experiência da nossa consciência, mas ela persiste como um membro fantasma na psique.

Essa presença se manifesta em dores inexplicáveis. São as coceiras da ansiedade, os espasmos de uma raiva sem gatilho aparente, a dormência em relações que deveriam ser calorosas. Tentamos convencer a nós mesmos de que está tudo bem, que a parte dolorosa foi removida. No entanto, o sistema nervoso da alma continua a reportar um ferimento que, por não ser visto, não pode ser cuidado. A dor fantasma é o preço da recusa em olhar para a perda.

Integrar é o processo de reabilitação. É reconhecer a amputação, sentar-se com a ausência e, pacientemente, ensinar à mente a nova configuração do ser. Não se trata de esquecer o que se foi, mas de aceitar a forma atual do corpo e da alma, com toda a sua capacidade e resiliência. Aos poucos, as sensações fantasmas se dissipam, não porque foram combatidas, mas porque a vida se reorganizou ao redor daquele espaço, tornando-se mais uma vez plena e funcional em sua nova inteireza.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

Compartilhe esta reflexão