Os fantasmas que sentamos à nossa mesa
Muitas vezes, acreditamos estar vivendo uma situação nova, com pessoas novas, em um presente límpido. No entanto, sem que percebamos, convidamos velhos fantasmas para se sentarem à mesa conosco. Eles são as figuras não resolvidas do nosso passado — as dores, as dinâmicas familiares, os papéis que aprendemos a desempenhar — e sussurram roteiros antigos em nossos ouvidos.
A repetição, neste prisma, é a encenação de um drama antigo com um novo elenco. Inconscientemente, projetamos no outro a face de um fantasma. O chefe se torna o pai crítico, o parceiro se torna aquele que nos abandonou, o amigo se torna o rival. E nós, por nossa vez, representamos o mesmo papel de sempre, esperando, secretamente, que desta vez o final seja diferente. O ciclo só se perpetua porque a peça é sobre o que não foi compreendido, e não sobre as pessoas que estão em cena.
Romper com isso exige um despertar para a nossa própria dramaturgia interna. Requer a coragem de olhar para a pessoa à nossa frente e perguntar: 'Quem é você, realmente, para além do papel que minha história lhe atribuiu?'. Ao fazer isso, não apenas libertamos o outro da carga de ser um espectro, mas também nos libertamos da obrigação de repetir um roteiro que já não nos serve. É um ato de profunda responsabilidade afetiva, que abre espaço para que relações autênticas possam, enfim, começar.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 2 — O Peso da Repetição