O Território Íntimo e Seus Hóspedes
O peso que não nos pertence coloniza o espaço interior sem fazer ruído. Ele se acomoda em cantos silenciosos da mente, mistura-se às nossas próprias inquietações e, com o tempo, passa a fazer parte da arquitetura da alma. A pessoa se acostuma com essa presença, esquecendo como era o cômodo antes da chegada do hóspede. Não se trata de uma invasão, mas de uma permissão gradual, um ceder de território que confundimos com afeto ou responsabilidade, mas que resulta em um lento esvaziamento de si.
A evolução interior exige, portanto, um delicado exercício de soberania: não a expulsão hostil do que foi acolhido, mas a redefinição de fronteiras. É um ato de mapear a geografia íntima para discernir o que é clima nosso e o que é tempestade alheia. Este discernimento é a base da maturidade. Reconhecer os limites do próprio ser não é fechar-se, mas restaurar o ecossistema interno, devolvendo a cada um o que lhe pertence. Apenas nesse espaço reconquistado, onde o silêncio e a respiração própria podem assentar-se novamente, é que a evolução encontra terreno fértil para acontecer.
Extraído de
Volume III — Evolução Interior
Capítulo 10 — Você Não Precisa Carregar Tudo