O Silêncio de Quem Assume a Própria Dor
Acolher a demanda alheia sem medida, transformar-se no pilar que sustenta pesos que não são seus, pode ser uma forma sutil de abandono. Não o abandono do outro, mas de si. Ao nos ocuparmos das urgências externas, criamos a ilusão de propósito e evitamos o encontro com o nosso próprio vazio. A dor do outro se torna um refúgio, um lugar onde nossa utilidade nos absolve da tarefa de encarar o que dói em nós. É uma responsabilidade terceirizada: eu cuido do seu mundo para não ter que organizar o meu.
O fim da disponibilidade excessiva é, portanto, um ato de coragem solitária. É a decisão de retirar-se não do mundo, mas do papel de salvador que nos distanciava da própria vida. Nesse recuo, o silêncio pode ser ensurdecedor, preenchido por tudo aquilo que a agitação externa abafava. Assumir essa dor, sem buscar um novo problema externo para resolver ou alguém para culpar, é o gesto que devolve a autoria. É o começo de uma liberdade que não grita, mas que finalmente respira, por conta própria.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 11 — O Fim da Disponibilidade Excessiva