O ônus e a honra da autoria
Chega um momento em que a vida deixa de ser um roteiro herdado para se tornar um manuscrito, e a caneta está em nossas mãos. A percepção deste poder é, de início, um peso. O peso de saber que as desculpas já não servem, que as circunstâncias explicam, mas não determinam o destino. É o desconforto de se ver implicado na própria inquietação. Esta é a fronteira da maturidade: onde a queixa se cala e a pergunta 'o que farei com isto?' ecoa por dentro.
É nesse espaço, porém, que a honra silenciosa da autoria se revela. A dignidade não nasce da ausência de erros, mas da coragem de assumir a própria caligrafia — com seus traços firmes e suas hesitações. Viver de modo coerente é um ato de respeito íntimo, uma resposta não aos outros, mas à própria consciência. E nessa resposta, por mais árdua que seja, reside a única soberania possível: a de ser o autor da própria história.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 15 — Coerência Interna