O ofício de carregar a própria vida

Há um conforto paradoxal em viver para o outro: a ocupação constante nos poupa do encontro com nosso próprio vazio e com a responsabilidade de preenchê-lo. A disponibilidade excessiva, disfarçada de virtude, pode ser a fuga mais sofisticada da autoria. Retirar-se desse lugar não é um ato de egoísmo, mas o início de uma prestação de contas. É o reconhecimento de que há uma vida – a nossa – que foi deixada em espera, aguardando que seu verdadeiro dono assuma o leme.

Assumir a própria jornada tem peso. É o peso da liberdade, que exige decisão onde antes havia apenas reação. É a responsabilidade sobre o próprio tempo, a própria energia, o próprio caminho. Mas é neste peso que reside a dignidade. A dignidade de não ser apenas um recurso para o mundo, mas o autor do seu próprio universo. Uma presença que não se dilui para caber, mas que se firma para ser. É a transição silenciosa do serviço para a soberania pessoal.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 11 — O Fim da Disponibilidade Excessiva