O memorial que habitamos por engano
Construímos memoriais para aquilo que se foi, lugares de respeito e lembrança. São espaços que visitamos. O problema surge quando, sem perceber, transformamos um memorial da dor em nossa própria casa. Passamos a viver dentro da homenagem a um sofrimento passado, organizando nossa existência em torno de suas relíquias — a desconfiança, o medo da repetição, a rigidez que um dia foi escudo.
Morar nesse lugar é seguro, pois suas paredes são erguidas com a certeza do que já conhecemos. Não há surpresas, apenas a constante reverberação do eco de uma ferida antiga. As janelas são poucas e pequenas, para que o mundo exterior, com suas possibilidades e riscos, não perturbe a ordem fúnebre do ambiente. Escolhemos a previsibilidade da penumbra em vez da incerteza da luz.
Recomeçar por dentro é dar-se conta da natureza dessa construção. É perceber que estamos vivendo em um monumento, não em um lar. E, com essa consciência, tomar a decisão de sair. Não se trata de demolir o memorial, pois a memória do que aconteceu faz parte de nossa história. Trata-se de escolher construir uma nova casa ao lado, com janelas amplas e portas abertas, onde a vida possa fluir, mesmo que isso inclua a vulnerabilidade de um dia chuvoso.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade