O luto pela segurança da jaula

O medo que emerge ao quebrar uma repetição raramente é o medo do desconhecido em si. É, mais profundamente, o luto por uma identidade que se foi. A repetição, por mais dolorosa que fosse, oferecia uma narrativa. Éramos 'a pessoa que sempre faz isso', 'aquela que sempre termina aqui'. Essa previsibilidade, ainda que limitante, era um contorno para o nosso eu. Era uma jaula, sim, mas uma jaula com medidas conhecidas.

O vazio que se instala é o espaço deixado por essa versão de nós que precisou ser abandonada. É um eco, o membro fantasma de um hábito amputado. Confrontar esse vazio é confrontar a ausência de um personagem que desempenhamos por tempo demais. Assusta porque, sem o roteiro antigo, surge a pergunta inevitável e desorientadora: quem sou eu agora?

Permitir-se sentir a dor dessa perda é um ato de imensa coragem e responsabilidade. É reconhecer a parte de nós que se afeiçoou à própria prisão. Apenas ao atravessar conscientemente este luto, sem a pressa de encontrar um novo papel, é que a liberdade deixa de ser um conceito abstrato e se torna um território possível, um chão firme onde se pode, finalmente, caminhar com os próprios pés.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

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