O Espaço Deixado Pela Luz
A luz se apaga sem aviso. No meio da frase, no meio do gesto. A sala familiar se torna um território desconhecido, e o som que preenchia o ambiente é substituído por um silêncio denso, que não acalma, apenas constata. Por um momento, o corpo fica suspenso, tentando entender a geometria do espaço que agora é apenas sombra.
Antes da busca por velas ou da pergunta sobre a queda de energia, existe o instante puro da interrupção. É o marco zero do depois, o primeiro segundo depois das cinzas, quando o fogo ainda é calor na pele e a perda não tem nome. A mente ainda não formulou a extensão do que se foi, mas o corpo já sente a quebra. É o reconhecimento tácito de que uma continuidade foi rompida e o percurso precisa, de alguma forma, ser recalculado a partir do escuro. Não há o que fazer senão esperar que os olhos se acostumem à nova paisagem.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 2 — O Primeiro Impacto da Perda