O Eco dos Espaços que Deixamos
A culpa que surge não é por maldade, mas por um estranhamento topográfico. É o desconforto de quem, tendo aprendido a habitar os vales, começa a se sentir atraído pelas montanhas. O corpo e a alma pedem a altitude, o ar mais fino, a visão ampla. Olhar para baixo e sentir pena ou constrangimento por quem permaneceu no vale não é compaixão, é uma tentativa de negar a própria nova natureza. Sentimos culpa por não caber mais, como se nosso crescimento fosse uma ofensa arquitetônica ao lugar que um dia nos abrigou.
Honrar o próprio processo é aceitar essa nova geografia interna. Não se trata de desmerecer os vales ou julgar quem neles habita. Trata-se de reconhecer que nosso lugar no mundo não é um ponto fixo, mas uma direção. É compreender que, ao seguir a bússola da nossa consciência, naturalmente criamos novos territórios e deixamos outros para trás, que seguirão existindo, apenas não mais como nosso centro. A verdadeira conexão não reside em ocupar o mesmo espaço, mas em respeitar as jornadas distintas que cada um percorre em seu próprio mapa.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa