O eco da ferida na voz da identidade

A narrativa que se solidifica em torno de uma ferida raramente permanece como um monólogo silencioso. Com o tempo, ela se infiltra em nossa voz, molda nossa postura e se torna a própria definição de quem acreditamos ser. “Eu sou aquele que sempre é deixado para trás.” “Eu sou aquela que não pode confiar em ninguém.” Essas sentenças, nascidas como explicação, transformam-se em identidade. E uma identidade, por sua natureza, busca ser reconhecida e validada pelo mundo exterior.

Inconscientemente, passamos a nos apresentar aos outros a partir desse roteiro. Nossas ações, nossas escolhas e até mesmo nossas reações ensinam às pessoas como elas devem nos ver e nos tratar. Criamos um eco. Ao nos comportarmos como alguém que espera ser traído, por exemplo, induzimos um estado de vigilância e suspeita que pode, por si só, corroer a confiança e gerar o afastamento que tanto temíamos. A profecia se cumpre não por uma conspiração do destino, mas porque fomos seu principal arquiteto e porta-voz.

Desfazer esse nó requer um trabalho de silêncio e observação. Exige que separemos a voz que narra a história da consciência que a escuta. A identidade baseada na dor é apenas uma camada, uma vestimenta antiga que já não nos serve mais, embora pareça familiar e segura. O passo fundamental para um recomeço é perceber que não somos a história que contamos sobre nós mesmos. Somos o espaço silencioso onde essa e outras inúmeras histórias podem ser acolhidas, compreendidas e, finalmente, transcendidas.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 5 — Dor Não É Identidade

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