O Desgaste da Vigília Constante
A alma que se habitua a viver em sentinela paga um preço silencioso pela sua segurança. Toda a energia que poderia ser investida na exploração do mundo, na criação de laços ou no cultivo de dons internos é desviada para a manutenção dos muros e para a vigilância das fronteiras. É uma economia de escassez, onde o medo se torna o principal administrador dos recursos vitais. A criatividade, a espontaneidade e a alegria genuína florescem em solos de confiança, onde há espaço para o imprevisto.
Este estado de alerta permanente, confundido com autossuficiência, na verdade esgota a paisagem interior. Torna-a árida e previsível. A pessoa pode até sentir-se no controle, mas é o controle sobre um território cada vez menor e menos fértil. A blindagem, que prometia proteger a vida, acaba por sufocá-la lentamente, impedindo que novas águas corram, que novas sementes germinem.
Recomeçar, neste contexto, não significa derrubar todas as defesas de uma só vez, mas aprender a ser um guardião mais sábio do que um carcereiro. Implica a coragem de questionar se o que nos protege não é também o que nos aprisiona. A verdadeira estabilidade floresce quando transferimos a confiança do muro para a nossa própria capacidade de discernir, de nos curarmos e de navegarmos as inevitáveis intempéries da vida, sem abdicarmos da paisagem inteira.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade