O Desgaste da Vigília Constante
Este estado de alerta permanente, confundido com autossuficiência, na verdade esgota a paisagem interior. Torna-a árida e previsível. A pessoa pode até sentir-se no controle, mas é o controle sobre um território cada vez menor e menos fértil. A blindagem, que prometia proteger a vida, acaba por sufocá-la lentamente, impedindo que novas águas corram, que novas sementes germinem.
Recomeçar, neste contexto, não significa derrubar todas as defesas de uma só vez, mas aprender a ser um guardião mais sábio do que um carcereiro. Implica a coragem de questionar se o que nos protege não é também o que nos aprisiona. A verdadeira estabilidade floresce quando transferimos a confiança do muro para a nossa própria capacidade de discernir, de nos curarmos e de navegarmos as inevitáveis intempéries da vida, sem abdicarmos da paisagem inteira.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade