O Cuidado que Afoga a Raiz

Na paisagem da nossa evolução interior, muitas vezes somos a mão que rega a planta já úmida. Não há intenção de afogar, apenas um reflexo de não saber o que mais fazer com o nosso próprio desconforto. A ação — um zelo que se torna fuga — substitui a observação. O movimento incessante preenche o vazio que o silêncio traria, a quietude que nos permitiria notar que a folha amarelada da nossa psique não pede mais estímulo, mas espaço. Esse fazer constante nos impede de formular a pergunta essencial para qualquer crescimento: do que a nossa raiz interior realmente tem sede?

Interromper o gesto, pousar o regador, torna-se então o primeiro ato de uma presença que nutre a evolução. É nesse hiato, no instante em que a mão se recolhe, que a autopercepção pode começar a brotar. A clareza não vem da próxima ação, mas da pausa que a antecede — o momento em que se compreende que a verdadeira nutrição, para o nosso desenvolvimento, é por vezes deixar ser. Deixar secar o terreno encharcado pelas nossas próprias ansiedades. Deixar respirar. A evolução que se buscava forçar com excesso de movimento encontra, enfim, sua chance na quietude.

Extraído de

Volume III — Evolução Interior

Capítulo 16 — A Clareza Que Surge Quando Você para de Fugir