A Verdade por Baixo das Cinzas
Quando o fogo passa e o alarme da urgência se cala, resta o eco. É no silêncio que se instala depois das cinzas que a dimensão do que se foi começa a mudar. Não é mais sobre o volume da perda, mas sobre o espaço que ela de fato ocupava em nós. As cinzas que assentam sobre os destroços são, por vezes, a mesma matéria que encobria uma verdade interna: a de que certas estruturas, antes mesmo de arderem, já não nos serviam de morada.
Este cenário, agora transformado pela fuligem, serve de espelho. Nele, não vemos apenas o que virou ruína, mas um reflexo nítido do que sobreviveu em nosso íntimo. É nesse limiar silencioso que percebemos: o fogo que consumiu o lado de fora apenas confirmou um desapego que a alma já vinha processando. Não se trata de ausência de dor, mas de uma estranha lucidez que reconhece que o verdadeiro alicerce não estava nas paredes que o calor fez ruir.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 1 — O Fogo Que Levou o Que a Alma Já Não Carregava