A substância do espaço que se abre

Quando o ruído familiar de um ciclo se extingue, o que resta não é o nada, mas o silêncio. E nós, desacostumados da quietude, o confundimos com o vazio. O espanto inicial vem da súbita ausência de paredes, de trilhos que nos guiavam mesmo que em direção ao abismo. Agora, sem as margens conhecidas, sentimo-nos perdidos em um campo aberto sob um céu vasto demais.

Este espaço, no entanto, não é ausência, mas potência. É o solo que foi finalmente limpo de uma construção antiga e frágil. Antes de se apressar em erguer algo novo para aplacar a vertigem da liberdade, é preciso aprender a habitar este lugar. Sentir a sua textura, respirar o seu ar, perceber que ele não é oco, mas sim permeado por tudo o que ainda não tomou forma.

O verdadeiro recomeço não acontece ao preencher este intervalo, mas ao compreendê-lo. É um convite para escutar o que apenas o silêncio pode dizer. Nele, encontramos a matéria-prima para uma existência mais autêntica, não mais uma reação a padrões antigos, mas uma criação deliberada que nasce da profundidade desta quietude.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 2 — O Peso da Repetição

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