A soberania sobre a própria dor

Há uma longa fase em que a nossa dor parece pertencer a outro. Narramos o que nos fizeram, apontamos a origem da ferida e condicionamos nossa paz a um gesto externo: o reconhecimento, a reparação, a justiça. Nesse lugar, a responsabilidade pela cura é terceirizada, e a vida se torna uma longa espera por um movimento que pode nunca acontecer, mantendo-nos reféns de uma história que já terminou.

A maturidade, porém, chega silenciosa quando essa espera se esgota. Não como um ato de perdão ao outro, mas de autorresgate. É a sóbria compreensão de que a ferida, independente de quem a abriu, agora é parte de quem somos, e seu cuidado nos pertence. Assumir a dor não é dar razão a quem feriu; é devolver a si mesmo o poder de responder por ela, de integrá-la e, enfim, de escolher o que se constrói a partir dela.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 20 — Escolher Quem Você Se Torna