A Queixa Como Morada Conhecida
A narrativa da vítima é uma morada de paredes familiares. Nela, o roteiro é previsível e a responsabilidade repousa sempre em algo externo: o destino, as circunstâncias, os outros. É um refúgio que nos isenta da complexidade da escolha, permitindo-nos ser apenas personagens passivos de um enredo alheio. A queixa torna-se a linguagem principal, um lamento que, ao mesmo tempo que descreve a dor, impede o movimento para fora dela. Sair desse papel significaria abandonar a familiaridade da injustiça sofrida.
Mas a consciência, uma vez desperta, expõe a estrutura dessa prisão confortável. Perceber a própria participação, mesmo que sutil, na manutenção da inércia, é um ponto de virada silencioso. A partir daí, permanecer na queixa deixa de ser um reflexo e se torna uma escolha. E é nessa escolha que reside o cerne da maturidade: a troca da passividade reativa pela presença que assume o leme, ainda que o mar à frente seja desconhecido.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 21 — Você Agora Decide