A Queixa Como Lugar Seguro

Existe um lugar estranhamente seguro na queixa de quem se vê perpetuamente sobrecarregado. A narrativa do 'sim' contínuo, que conduz à exaustão, pode se tornar um refúgio. Nesse lugar, a pessoa é a vítima das circunstâncias, das demandas alheias, da sua aparente bondade. É uma posição que pode gerar empatia externa, mas que, acima de tudo, a isenta de um movimento interno muito mais difícil: a escolha.

O que se evita, ao permanecer nesse papel, é a responsabilidade adulta de ser o autor do próprio caminho, inclusive do desconforto que uma negativa pode causar. Dizer 'não' é assumir as consequências, bancar o desapontamento do outro, sustentar um limite. É mais cômodo ser aquele que cede e depois lamenta, do que ser aquele que escolhe e responde pela própria decisão. A recusa em negar é, no fundo, uma fuga da autoria, a entrega da caneta para que a história seja escrita pelas necessidades de todos, menos as suas.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 2 — O Direito de Dizer Não