A Propriedade Silenciosa da Própria Dor
É mais simples apontar para o invasor do que examinar a porta que permaneceu aberta. Por muito tempo, delegamos o desconforto, esperando que o outro adivinhe os contornos de uma fronteira que nunca foi traçada com clareza. Essa terceirização da dor nos coloca em um lugar de espera passiva, onde o sofrimento é sempre uma ofensa recebida, e nunca uma consequência da nossa própria omissão. A queixa se torna um eco da inabilidade de nos pertencermos.
A maturidade, porém, se anuncia no exato momento em que essa transferência cessa. É o instante silencioso em que reconhecemos que o cansaço acumulado e a frustração repetida têm a nossa assinatura. O limite, então, deixa de ser uma reação ruidosa ao outro e se transforma em uma ação consciente a nosso favor. Não para atacar, mas para organizar. É o gesto de quem finalmente assume a responsabilidade pela própria paz, sem esperar que alguém a construa por nós.
Extraído de
Volume II — Responsabilidade e Escolha
Capítulo 3 — Limite Não É Agressão