A Memória dos Espaços Vazios

Ao reorganizar um cômodo, trocando um móvel pesado de lugar, a mudança é visível. O ambiente parece novo, mais amplo. No entanto, por dias, o corpo ainda traça o caminho antigo, desviando do obstáculo que já não existe. O tapete, por sua vez, guarda a marca funda, um relevo que testemunha a antiga configuração. A alteração externa acontece num instante, mas o espaço interno e o hábito demoram a se reajustar.

Nisto reside uma imagem precisa da nossa evolução interior. A decisão de mudar — uma resposta, um hábito, uma relação — é o móvel em seu novo lugar. A evolução, contudo, não se resume ao ato de vontade. Ela acontece no tempo lento e silencioso que o corpo-memória leva para desaprender o desvio inercial. A verdadeira transformação está na recalibração desta geografia íntima, quando o sulco no tapete deixa de ser um guia e se torna apenas uma cicatriz esmaecida. A evolução interior se consolida quando nosso ser, enfim, aprende a habitar o novo espaço sem a memória fantasma do que o confinava.

Extraído de

Volume III — Evolução Interior

Capítulo 17 — A Mudança Que Permanece Começa por Dentro