A memória como mapa, não como morada

As memórias são territórios que carregamos dentro de nós. Algumas são paisagens solares, outras, pântanos de difícil travessia. A ruminação acontece quando, em vez de consultar o mapa de uma região difícil para não nos perdermos novamente, decidimos montar acampamento permanente no meio do pântano. Ficamos ali, atolados na mesma lama, descrevendo em detalhe o cheiro, a umidade, a ausência de caminho, sem jamais tentar sair.

Refletir, por outro lado, é usar a experiência da travessia para cartografar o terreno. É olhar para o mapa e reconhecer: 'aqui há uma armadilha, ali uma trilha falsa, aqui foi onde me feri'. O objetivo desse estudo não é lamentar o caminho percorrido, mas compreender sua geografia para as jornadas futuras. A dor do passado se torna um ponto de referência, um aviso de que aquele tipo de solo não é firme, de que é preciso mais atenção ou uma rota diferente.

Assumir a responsabilidade pelo nosso mundo interior é aprender a ser o cartógrafo de si mesmo. Não se trata de apagar os pântanos do mapa — eles fazem parte da nossa história —, mas de deixar de fazer deles a nossa morada. Usamos a sabedoria adquirida na dificuldade para navegar com mais consciência, sabendo que o mapa é vasto e que há sempre novos horizontes para explorar, muito além daquele ponto onde um dia ficamos presos.

Extraído de

Volume I — Consciência

Capítulo 3 — A Ilusão da Culpa

Compartilhe esta reflexão