A Gratidão Por Quem se Aproxima

Depois das cinzas, somos convencidos de que o mundo se resume à paisagem calcinada que restou. O olhar se habitua a percorrer os escombros, a mapear o que o fogo levou e quem não sobreviveu para testemunhar o depois. Esgota-se nessa vigília, nessa geografia de perda onde cada passo levanta a poeira do que um dia foi.

Há um ponto de inflexão que não vem da força ou da vontade, e sim do cansaço. A atenção, exausta de remexer nas mesmas cinzas, desvia-se por um instante. E nesse desvio, percebe. Não uma solução, mas uma presença. Um gesto que não tentou apagar os vestígios da destruição. Um silêncio que não exigiu explicação. Alguém que permaneceu em meio à desolação. É nesse reconhecimento mudo, livre de expectativas, que a reconstrução encontra seu primeiro solo firme por entre as ruínas: um lugar onde a dor não precisa ser superada para coexistir com o cuidado.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 14 — A Gratidão por Quem Se Aproxima