A goteira como paisagem da estagnação

Existe uma familiaridade incômoda naquilo que se adia. A goteira na cozinha, por exemplo. No início, o pingo constante perturba, um lembrete insistente do que precisa ser reparado. Com o tempo, as explicações para a inércia — a falta de tempo, a promessa do 'amanhã' — vão se sobrepondo ao ruído. O som não desaparece, mas se integra à paisagem sonora da casa. Deixa de ser um problema para se tornar um traço do ambiente, uma convivência pacífica com a falha.

Essa mesma aclimatação acontece por dentro. As pequenas omissões, as conversas que evitamos, os padrões que nos limitam — são as goteiras que emperram nossa evolução interior. Criamos narrativas que amortecem o desconforto, transformando a consciência da falha em um ruído de fundo tolerável. A evolução interior não é acionada por uma epifania, mas pelo fim das desculpas. Pelo instante em que decidimos que o ruído da goteira — externa ou interna — não é mais uma paisagem aceitável, mas o som da nossa própria estagnação.

Extraído de

Volume III — Evolução Interior

Capítulo 6 — A Mudança Começa Quando as Desculpas Terminam