A Geometria Vagarosa da Reconstrução
Há um consentimento interior, uma concordância que acontece na quietude. A mente entende a lógica: não se retorna à mesma forma depois das cinzas. Essa compreensão oferece um abrigo teórico, uma clareza que organiza o caos deixado pela perda, desenhando fronteiras nítidas entre a vida de antes e a paisagem calcinada do agora. Viver essa verdade, no entanto, é um ofício distinto. O cotidiano não pede licença à teoria. Ele se apresenta com os mesmos reflexos, o mesmo anseio sutil pelo conforto da estrutura que desabou. É o corpo que lembra um mapa antigo, o hábito que insiste em tatear por paredes que agora são pó e memória. Aqui, sobre o chão de cinzas, a reconstrução não é um conceito, mas uma sucessão de pequenas escolhas, muitas vezes imperceptíveis, que desviam milimetricamente o curso de um rio interior que teima em correr para o mesmo mar.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 15 — Reconstruir sem Voltar a Ser o Mesmo