A geografia silenciosa de uma casa

Os corpos se cruzam no corredor, um gesto automático de quem divide o mesmo CEP, mas não necessariamente o mesmo mundo. A pergunta protocolar, “como foi seu dia?”, recebe a resposta de sempre: “normal”. A rotina se encarrega de preencher os espaços, mas o silêncio revela as rachaduras nos alicerces do que foi construído. A Verdade, pilar que sustenta o diálogo e a confiança, já não se manifesta; a comunicação se resume a monossílabos e a vulnerabilidade cedeu lugar à performance do cotidiano.

Nesse abismo, o Respeito, outro pilar, se torna apenas uma cordialidade distante, e a Intimidade é uma memória de um tempo em que os olhares se decifravam sem necessidade de legendas. O Companheirismo, que inspira um projeto de vida em comum, parece ter sido reduzido à mera administração de um endereço compartilhado. A Amizade, a base que deveria acolher e sustentar, se perdeu. A convivência cumpre seu roteiro, mas o acesso à geografia interna do outro, antes sustentado por esses pilares, agora encontra-se interditado. As presenças se confirmam, mas o encontro genuíno não acontece mais.