A geografia silenciosa da falta

Depois das cinzas de uma grande perda, instaura-se uma nova geografia interna. Um acontecimento que se torna lugar, um terreno calcinado no mapa da consciência. Não se trata de varrer essas cinzas para debaixo do tapete da rotina, pois elas são, agora, o solo que nos constitui. Tentar negá-las é lutar contra a própria paisagem que se formou a partir do incêndio, é recusar a terra escura que nos trouxe até aqui.

A liberdade reside, portanto, não na negação desse território, mas na lenta redescoberta de como caminhar sobre ele. É o movimento silencioso de deixar de habitar exclusivamente a ruína. Depois das cinzas, a memória da perda pode se tornar um memorial quieto, um cômodo que se visita com respeito, e não a prisão de escombros que define todos os nossos passos. É reconhecer que, mesmo com essa paisagem alterada, a vida insiste em brotar, que outros campos, talvez fertilizados pela própria queima, aguardam em nós para serem novamente habitados.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 12 — Liberdade Interior: Quando a Perda Não Vira Prisão