A geografia silenciosa da autoproteção
Uma dor profunda age como um evento geológico na paisagem da alma. Deixa uma fenda, uma área de instabilidade. A primeira reação, quase instintiva, é criar uma barreira em torno dessa falha. Plantamos uma cerca de espinhos, erguemos um muro para que nada e ninguém toque novamente naquele ponto sensível. É um ato de sobrevivência, um movimento de autopreservação legítimo.
Com o tempo, essa geografia da proteção se expande de forma silenciosa. A cerca, antes restrita a um pequeno perímetro, começa a avançar, cercando territórios que eram férteis. O medo de uma nova dor se torna o jardineiro principal, e ele só cultiva defesas. A paisagem interior, que antes abrigava a diversidade de flores, rios e campos abertos, torna-se um terreno árido e monocromático, dominado pela vegetação hostil da prevenção.
O trabalho da consciência é se tornar um cartógrafo dessa paisagem. É mapear onde a proteção ainda serve a um propósito e onde ela se tornou um limite que impede o crescimento. É entender que a terra marcada pela fenda pode, com o tempo, se tornar um vale fértil, irrigado justamente pela experiência que a feriu. A liberdade interior não está em negar as cicatrizes do terreno, mas em não permitir que elas ditem as fronteiras de todo o nosso mundo.
Extraído de
Volume I — Consciência
Capítulo 5 — Dor Não É Identidade