A Geografia Depois das Cinzas
Depois das cinzas, a geografia interior está irrevogavelmente alterada. Onde havia vida, restam territórios de silêncio, vales cobertos pela fuligem da ausência. A pressa nos impele a varrer o que sobrou, a erguer construções novas sobre um solo instável, apenas para não encarar o que o fogo levou. A estagnação nos convida a montar acampamento permanente na borda da devastação. Há, porém, uma terceira via: aprender a caminhar por esta paisagem calcinada. É um ato de presença, de sentir a textura das cinzas sob os pés, de reconhecer seus novos relevos sem a urgência de os aplainar. Não se trata de se queimar de novo, mas de conhecer a cicatriz deixada pelo fogo, de compreender como o solo, agora transformado pelas próprias cinzas, se integrou ao todo. Quando deixamos de lutar contra o que restou, passamos a nos mover com mais verdade. Não como vítimas de um incêndio, mas como habitantes de uma paisagem que, mesmo refeita pelo fogo, continua a ser nossa.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 11 — Evoluir sem Negar a Dor