A Fresta de Luz na Quietude
Por vezes, o ponto de inflexão não é um ato de coragem, mas a percepção silenciosa que emerge na quietude. É o momento em que se observa, sem intenção, a poeira dançando no feixe de luz que invade um cômodo sombrio. Não há pensamento sobre recomeço, apenas a constatação de que a luz ainda entra, a poeira ainda se move e o corpo ainda respira no meio de tudo. Nesse instante, a vida depois das cinzas se manifesta. Ela não está na força para limpar os escombros, mas na capacidade de testemunhar a própria existência em meio a eles. É uma presença discreta, quase neutra, que não exige e não promete nada. É a vida em seu estado mais fundamental: a permanência. Reconhecer isso não apaga a dor, mas situa a existência para além dela, em um espaço onde o simples ato de ser é, em si, a única continuidade necessária.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 16 — Depois das Cinzas, Ainda Há Vida