A Estrutura que as Cinzas Revelam

As cinzas de uma realidade externa revelam um lugar que se abre em nós. Não é um vazio, mas um recinto silencioso, povoado pelos contornos do que ardeu. A primeira inclinação é a de varrer os restos, esquecer o desenho deixado pela ausência, erguer algo novo sobre as fundações ainda quentes. É um movimento quase instintivo de negação da própria geografia interna que o fogo acabou de mapear.

Permanecer ali, no entanto, é um ato de natureza distinta. Não para lamentar, mas para observar o que restou. É onde se pode notar a diferença entre o que era apoio e o que era muleta, entre o que era paisagem e o que era a própria parede de sustentação. No silêncio depois das cinzas, a atenção se volta não para o que foi consumido pelo fogo, mas para a estrutura que, mesmo frágil, permaneceu de pé. É ali que se revelam as dependências e as forças tranquilas que desconhecíamos, a arquitetura interna que a perda apenas expôs.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 6 — O Que Desaba Fora Revela o Que Existe Dentro