A Dor Que Deixa de Ter Culpados

É comum delegar ao outro o peso de nossos desconfortos, tornando-o réu de uma angústia e, ao mesmo tempo, o único salvador possível. Exigimos que a mesma mão que fere seja a que cure. Nesse ciclo, a dor se torna moeda de troca, instrumento para cobrar e manter o outro cativo a uma dívida emocional que talvez nunca tenha contraído. O vínculo adoece, não pela presença do conflito, mas pela ausência de responsabilidade sobre o que se sente.

A verdadeira autoria sobre a própria vida, contudo, desabrocha no silêncio que se segue ao impulso da acusação. É quando a pergunta deixa de ser 'por que você fez isso comigo?' e passa a ser 'por que isso ressoa em mim com tanta força?'. Deixar de terceirizar a dor não é isentar o próximo, mas sim retomar a posse do próprio mundo interno. É a coragem de assumir que, embora o outro possa tocar a ferida, a responsabilidade de cuidar dela ainda nos pertence. Um passo silencioso para uma liberdade menos reativa e mais inteira.

Extraído de

Volume II — Responsabilidade e Escolha

Capítulo 18 — Relacionamentos Conscientes