A Distância Entre o Mapa e o Chão

Compreender a ideia de permanência é um ato intelectual, um assentimento da alma diante do que parece verdadeiro. Lemos sobre a diferença entre proximidade e presença e a lógica nos conforta. Mas o corpo que agora habita o mundo depois das cinzas sabe que a realidade é menos nítida. O mapa nos oferece um caminho para o território do luto, mas o chão a ser percorrido tem outra textura. A teoria é limpa; a vida depois das cinzas é feita de silêncios hesitantes, de presenças que não sabem o que dizer e de uma solidão que, por vezes, coexiste com o amparo.

Viver isso não é apenas para quem sente a dor, mas também para quem a testemunha. É simples concordar com a importância do respeito ao espaço do outro; difícil é conter o impulso de querer 'resolver' o que não tem conserto. É nesse lugar, entre o que sabemos ser o certo e o que conseguimos humanamente praticar, que a profundidade dos vínculos se revela. Não na perfeição do gesto, mas na constância da tentativa, na coragem de permanecer ao lado de alguém sobre um chão ainda coberto de cinzas, sendo limitado, ainda que presente.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 13 — Os Vínculos Que Permanecem