A Arquitetura Silenciosa das Ruínas Interiores

Carregamos dentro de nós construções inteiras, erguidas em épocas de vida que já não nos servem. São estruturas de afeto, de passado, de versões de nós mesmos que um dia fizeram sentido. Convivemos com elas sem notar o seu peso ou o seu estado de abandono, até que um acontecimento externo, uma ruptura abrupta, espelha essa demolição que já ocorria em silêncio. O que desmorona do lado de fora não inaugura o fim; apenas dá um nome visível e um cenário concreto para a despedida que a alma já ensaiava há muito.

Por isso a sensação que se segue não é de alívio, nem de alegria, mas de uma sóbria e profunda consonância. A dissonância entre o que se sustentava por fora e o que já se desfazia por dentro cessa. O incêndio, a perda, o evento final, age como um selo definitivo em um processo de desapego que era, até então, invisível e solitário. A paisagem, depois das cinzas, torna-se o primeiro terreno honesto sobre o qual se pode, enfim, apenas estar, sem o esforço de manter de pé o que já estava em ruínas.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 1 — O Fogo Que Levou o Que a Alma Já Não Carregava