A arquitetura do que nos sustenta

Não é um estrondo, mas um murmúrio. Uma dissonância que nos alerta para o material inflamável acumulado nos cantos da alma. É a rachadura na parede que, sabemos, não suportará o tremor; o cheiro sutil de fumaça onde deveria haver apenas a rotina. Nesse espaço, desarmados de justificativas, sondamos a nossa estrutura em busca do que é verdadeiramente incombustível. Essa é a consciência que antecede a crise, o inventário silencioso que distingue o adorno do alicerce, muito antes que as chamas nos obriguem a procurar abrigo.

Por isso, o que encontramos depois das cinzas não é uma surpresa, mas uma confirmação. É a presença daquele chão interior, daquela verdade sobre si que já havíamos identificado como o nosso material essencial — aquilo que o fogo purifica, mas não consome. A paisagem familiar se torna escombro, sim, mas as cinzas revelam a arquitetura daquilo que foi observado e honrado no silêncio. É essa matéria que nos permite estar ali, presentes, para reconhecer o contorno do mundo e de nós mesmos, redefinido pela ausência do que ardeu.

Extraído de

Depois das Cinzas

Capítulo 9 — Consciência Antes da Crise