A Arqueologia Silenciosa das Gavetas
Depois das cinzas, o gesto de esvaziar um armário assume outra densidade. Não se trata do que foi consumido pelo fogo, mas do que sobreviveu intacto, protegido numa gaveta. Dentro dela, um objeto de um tempo anterior ao incêndio. O corpo reconhece o peso daquele passado antes que a mente nomeie a nostalgia. Aquele objeto não é uma coisa, é um portal para a vida que existia antes. Ele ancora uma fase, uma esperança, uma decisão que fazia sentido naquele mundo que já não existe. Olhar para ele é visitar as ruínas de uma construção que não foi o fogo que derrubou, mas o tempo.
O que se faz diante disso? Muitas vezes, a primeira reação é guardar de novo, empurrar a caixa para o fundo. Mas o convite, depois das cinzas, é outro. É sustentar o olhar não sobre o objeto, mas sobre o espaço que ele ocupa num presente reconstruído. O verdadeiro movimento não está em descartar ou manter, mas em perceber que a vida que emerge dos escombros já não precisa daquele alicerce. A memória permanece, agora purificada pelo fogo. O peso se esvai quando compreendemos que aquela história já cumpriu sua função e nos entregou a este agora — a este chão firme, ainda que coberto de cinzas.
Extraído de
Depois das Cinzas
Capítulo 1 — O Fogo Que Levou o Que a Alma Já Não Carregava